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2010-01-06 - 16:51:45
Rodolpho del Guerra

                                                    "Me dá meu ano bom!"
Hoje, 1º de janeiro, minha rua, a Francisquinho Dias, dorme. Dorme sem passos, sem gritos, sem prosas... Ninguém!...
As crianças, em algazarra, que apertavam campainhas e batiam palmas em busca do presente do “ano bom” desapareceram. Continuando a tradição, procuram novos endereços, em bairros, onde estão as numerosas  famílias que as atendem, dando-lhes uma moeda ou uma guloseima qualquer.
Minha rua, agora comercial, nesta manhã do primeiro dia de ano, está coberta de sol e de calor, vazia, silenciosa, com lojas fechadas, sem o som propaganda das lojas e a tagarelice e a alegria da molecada.
As famílias, que nela persistem ficar, não chegam a ocupar oito residências: foram expulsas pelo comércio...
Eu consegui muitas notas de dois reais esperando os alegres visitantes mirins... Não dei uma sequer!... Que pena!... Já é meio-dia e, segundo a tradição, é a hora de encerrar os pedidos nas casas...
Nós, da Francisquinho Dias (que já foi Rua dos Calabreses, do Carmo, Américo de Campos e João Pessoa), estamos isolados numa rua bonita, com pouco calor humano, que começa a perder alguns traços culturais.
Há alguns dias, funcionários da Gazeta, na sala de redação, riam muito lembrando-se do “dia do ano bom” das suas infâncias. Recordaram-se de pessoas que davam algumas balas, pedaços de rosca, saquinhos com doces secos, frutas, lápis, caderno, santinho e as poucas e esperadas moedas. Gargalharam com o esbravejar de um morador que gritou da janela: “Vai apertar o botão da sua vó, desgraçado!... Ainda não são seis horas!”... Elogiaram outro morador que mandou o grupo entrar, sentar-se à mesa, servindo-lhe chocolate, bolo, pão com manteiga e, na saída, deu a cada um 50 centavos...
Eu me lembrei do meu inesquecível tio, Alberto Flamínio, que dava a cada sobrinho uma moeda de prata de 2 mil-réis...
Hoje, 1º de janeiro, 13 horas, o telefone toca. Guardo as notas de dois reais que, infelizmente, não foram presenteadas. Vou desligar o computador para almoçar.
Estou isolado numa rua bonita, deserta neste feriado, com pouco calor humano, que começa a perder alguns traços culturais.
A vocês, caros leitores, um pacífico e feliz ano novo.





 




















Gazeta do Rio Pardo - Fundada em 03/01/1909 | ANO 101